segunda-feira, 2 de março de 2009

osteogénese imperfeita

É de cozir lento o ovo da alegria
E fogo baixo é muito para tal operação
Uma chama a mais e ele se rompe com o grito da tristeza
Que lá de dentro ecoa com amplificação.

Bom mesmo seria um lampião
Que só com luz
Esquentaria em prazo estendido
Esso ovo de paredes de vidro
Deixando reinar nossa rainha Alegria
Que com confetes demarca os limites do feudo
E com sorrisos alimenta os servos
Para que não passem fome ou tristeza:
As piores das doenças.

Assim então
Quando cozido nosso ovo estiver
Ecoarão os gritos
E os vidros estilhaçarão
E os confetes
Com a ventania se dispersarão
Os sorrisos
Com a fome se fecharão
E a nossa rainha
Derramará seu pranto sobre a luz do lampião
Pois tristeza não tem fim
Felicidade
Sim.
Escuridão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

da série: crônicas escrotas por falta de inspiração.

Era num elevador, de tarde, num dia ameno. O rapaz entra e encontra a irmã da amiga de seu irmão, que por uma ou duas vezes já entrara em sua casa, pedindo licença, sendo educada, e que já trocara uma ou duas palavras com ele. Exato, aquela pessoa que você menos deseja encontrar num elevador: Alguém que você conhece  a ponto de ser obrigado a puxar um assunto, dar oi, enfim. Pois, lógico, torcemos todos para que seja ou nossa namorada, ou melhor amigo, pai, mãe, e até melhor: desconhecidos, os quais você só precisa se preocupar em segurar uma possível flatulência - caso uma feijoada ainda em digestão tenha armado uma barraca na sua barriga. O jeito é pensar que o momento durará no máximo 30 segundos. Olhar no relógio não ajuda.
- Oi...
- Oi...
- Tem visto sua irmã?
- Minha irmã!?
- Meu irmão.
- Você falou "minha irmã".
- Como eu falei isso? Lógico que você anda vendo sua irmã. Quis saber do meu irmão, se você tem o visto.
- Ah, sim... estudamos juntos né.
- Aham...
3  segundos de silêncio, ele tenta de novo.
- Tá quente hoje, né?
- Não achei...
- Pois é... hehe
Abre a porta.
- Graças a Deus.
- Oi?!
- Nada, é que sempre tenho medo que ele pare. Hehe, tchau... manda um beijo pra sua irmã!

E assim foi.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Alzheimer

O ciclo inverso: velho que vira bebê. A loucura de uma lógica imperceptível. Ver esse processo é tão assustador quanto temê-lo, sabendo que por forças genéticas a escapatória para isso é improvável. Convivo diariamente com esse desaprendizado gradual e lento, mas que com ferocidade destrói a facilidade de fazer as coisas mais simples, aquelas que fazemos desde os primeiros meses de vida. Os mais resistentes, desaprenderão a andar, depois, a comer, depois, a urinar, depois, a abrir os olhos e por fim, a respirar. Desejo, sinceramente, ser o menos resistente possível.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Quando eu passei no vestibular.

Foi há sessenta e oito anos, no auge dos meus dezessete e das alegrias de um menino saudável, alegre. Recordo que os dias que antecederam meu momento de glória passaram-se arrastados, tão demorados quanto o meu trajeto, hoje, daqui até a cozinha. Meu sono era perseguido por meus pensamentos ansiosos e intrigados, num segundo a certeza, no outro o pessimismo, mas agora, o dia havia chego, e eu tremia quase que feito um idoso rendido ao Parkinson. 
Não me lembro exato da hora em que saí de casa e do trajeto de carro até a universidade, mas lembro o quão ansioso fiquei quando saltamos do carro. Quase ninguém estava por lá e cheguei até a pensar em estar enganado, sobre o dia, a hora ou até mesmo o local da reveleção dos classificados: como que poderia ser em outro lugar?! Uns cinco minutos de caminhada até o local exato me fez aliviar por não estar errado, mas logo depois o alívio transformou-se em suor. 
Estava ali, na frente do ginásio onde seriam divulgados os nomes. As portas fechadas, mas os nomes já dispostos pelas paredes de tijolos a vista. Lembro de levar a mão ao peito e senti-lo esmagado pelo meu próprio coração, que pulava e se contorcia como se tivesse mais nervoso que eu: impossível. Quando senti aquilo, uma vontade intrínseca de chorar me veio, e por um instante eu chorei mesmo que sem lágrimas - meu rosto já estava salgado demais. Minha prima, que fez questão de vir ver o resultado conoso - eu e minha mãe - , me abraçou e a vontade passou meio que por vergonha. 
Podia ver que aqueles que estavam quase que de cara com os portões do ginásio, conseguiam por instantes entreabrir a porta de madeira, que visivelmente era segura apenas por um pedaço de madeira que a deixava trancada - lembro que toda vez que faziam isso eu esboçava uma corrida. Assim, depois de algumas tentativas, alguém, de camisa verde, botou o braço por dentro e levantou o pedaço de madeira. Os portões se abriram. "Pode entrar, galera!", decretou o arrombador. 
Ao ver a pequena multidão de umas cinquenta pessoas correndo, só me restou correr junto. O trajeto era pequeno, de uns 20 metros, e para um jovem de dezessete anos fiz aquilo em torno de 20 segundos. No caminho olhei para as paredes de tijolos a vista e pude ver aonde estava disposto o meu curso. À esquerda, mais ou menos no meio do ginásio. Raciocinar e correr não era muito complicado, por isso não titubeei e lá estava na frente dos dois papéis - um para cada fase. Comecei pela primeira, mesmo achando que fosse mais improvável e por um lapso fui direto ao meu nome, como se todos os outros fossem dialetos do sul da indonésia, e foi só ele que, naquele instante, pude ler. Alegria, alegria.
Olhei para trás, levantei os braços, berrei e corri direto ao abraço de minha mãe. Chorávamos e nos agradecíamos num momento de transe. Um choro soluçado, de criança, de alegria, alívio e emoção. Passei, acabou! Corri para o lado de fora e abracei com a mesma força meu amigo e minha namorada. Ovos, farinha, tesoura, meus cachinhos todos no chão. Eu deixei, óbvio, podiam, agora, me fazer de gato e sapato que eu não estava nem aí. Eu havia passado e, embora meu ano não tivesse sido inteiramente dedicado aos estudos, grande parte deveu-se sim a eles, às pressões, às expectativas e a tudo que aquilo envolvia. Estava satisfeito comigo mesmo e sabia que, a partir de agora, outros momentos de glória me esperavam, mas primeiro eu precisava festejar e muito esse que se passou.

sábado, 3 de janeiro de 2009

O coração do homem-bomba

Dez minutos de vida. O pouco que sobrou de seu coração pulsa freneticamente como dois martelos em ação, um em cada lado da cabeça. Fecha os olhos e tenta, pela última vez, se convencer de que a sua vida tem uma razão: aquele momento. Mas, também pela última vez, lembra de outra vida que podia ter tido, mas é outra, não essa, já foi, tarde demais, embora teria sido bom de outro jeito. Um gramado verde e extenso, quase infinito, um chalé de madeira e um jardim florido, muito florido - era ficcionado por flores, embora não pusesse isso à vista devido à vergonha -, quatro crianças, produtos seus, correndo e divertindo-se com um, dois ou quem sabe três cachorros. Teria sido legal, diferente, fantástico. Suspira.
Mas, o coração do homem-bomba não bate sempre por sentir vontade, e sim pra sentir saudade. Saudade da vida, de bater, martelar, viver. É um coração disciplinado e racional, racista, inconsequente** e burro, fútil, mesquinho, treinado. Sim, treinado, pois haja treino pra fazer um coração desamar, dessentir, "desviver". É vida de gado, boi marcado, e um  sentido fascinante: nada.
Volta a abrir os olhos, vê todos aqueles civis e pensa quantos daqueles deixarão de ser e existir por causa dele mesmo. Imagina aquela senhora caída com as pernas mutiladas, a outra criança dilaçerada e o olhos daquele cego que atravessa as ruas, fechados para sempre. Mas sim, está decidido, terá de ir enfrente. Não desistiria agora. Ou não!? Fugir?! Como?! Olha e pensa nos comparsas, também decididos, lembra de uma floresta que tem a poucos metros, correria até lá e se esconderia até o anoitecer e, após isso, fugiria para outro país para recomeçar. Parecia uma boa saída.
Os comparsas o chamam, ele olha para os lados, começa a correr muito, como nunca, em rumo à floresta mas lá no fundo pensando no seu jardim. Os comparsas correm também, indignados com a atitude do miserável traidor barato e infeliz, mas, lá no fundo, agradecendo por ter uma desculpa para o plano ter dado errado, quem sabe assim sobreviveriam! Correm uns duzentos metros, a floresta não chega, nosso protagonista volta à civilização para tentar se camuflar no meio da multidão e quem sabe escapar. O plano falha e os comparsas estão a poucos metros dele. Um deles estica o braço, agarra o colarinho da camisa já suada do traidor, este vira para trás para tentar se soltar, esbarra naquela senhora - aquela, dos pés mutilados, lembra? - e cai...  bum.




**tremas não existem mais, não é culpa minha! 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

são demais os perigos dessa vida

A vida nos separa, o tempo nos enforca. Se tudo fosse decidido naquela hora que você está pensando: "Quero ficar assim pra sempre, amando desse jeito e de repente, sei lá, ter uns três filhos", você com certeza seria feliz, a qualquer custo, com aquela pessoa, pra sempre. Mas o poeta já avisou que "são demais os perigos dessa vida", e antes fosse poder resolver tudo desse jeito. Como eu queria lembrar disso todas as horas! Não me esquecer nenhum instante desse amor gigante que tenho em mim,e aí a partir disso manejar todos os meus atos e posições...



ps: leiam Marley & Eu

sábado, 20 de dezembro de 2008

coração cigano

Dois pés apontavam para lá

As folhas corriam pelo chão

Novamente um caminho que sumia

No horizonte desconhecido

 

Duas vozes palpitavam para onde ir

Qual das duas tinha a razão?

Muito tempo foi pra perceber

Nenhuma delas era o coração

 

Mas se só ele sabe o que é certo

Por que se cala quando a outra voz me fala o caminho da solidão?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Esquecer.


Soube hoje que eu tinha oitenta e quatro anos. Via-me no espelho e sim, isso fazia sentido – embora não tivesse feito por tantas outras vezes. A descoberta repercutiu em forma de saudade, saudade de outros tempos, da mamãe, do papai, da Lindonéia, de tudo que em mim marcou a ferro. Queria tanto os ver de novo, por onde será que andavam? Não sabia como ir, por onde ir, o que fazer, mas uma vontade intrínseca movia-me como um servo obediente.

Impediam-me a qualquer custo, inventavam histórias – eu podia sentir que eram inventadas – e desnorteado eu olhava para os lados buscando a chave da porta. Não estava em lugar algum! Confesso que muitas vezes utilizei-me da força para tentar, em vão, sair daqui e ir para lá, sem mesmo imaginar o que é o aqui e o lá, mas eu precisava, eu queria... Assim, no auge da minha fúria um buraco negro se formava em meu cérebro e eu esquecia, esquecia do porquê daquilo tudo, o que diabos estava eu fazendo ali. Como disfarce cedia às pressões e achava melhor descansar esse corpo sem propósito. Era melhor ir dormir.

Lá no fundo morava uma idéia de não querer mais acordar, dormir para sempre, morrer. Quem sabe assim eu encontrava papai, mamãe e Lindonéia, minha amada perdida e esquecida no tempo e na memória, e saciava esse ser dentro de mim que me movia de um lado para o outro sem saber por que o faz. Pensava se valia à pena acordar todo dia e descobrir cada vez mais coisas novas, ou descobrir cada vez mais que eu não sabia nada, que estava me perdendo no tempo. Pensando bem, nessa história triste há uma vantagem: no outro dia esqueceria esse meu sofrimento cômico e acordaria com a mesma paz de sempre – talvez fosse isso que alimentasse a vontade intrínseca que me fazia fugir.

Aos poucos pegava no sono e ia pensando naqueles de quem sentia falta, fazendo com que a saudade fosse lentamente sendo saciada, confortando-me o suficiente para parar com aquela idéia, agora maluca, de não querer mais acordar. Sabia que ao redor estava sendo amado por todas aquelas pessoas que se dispunham a cuidar de um velho perdido no tempo e na memória, as quais deviam saber o porquê disso, mas eu não fazia idéia. Imaginava que fosse alguma doença, porque já havia visto algumas pessoas da minha idade - quando não mais velhas – completamente lúcidas, sãs. Só rezava para que quando chegasse ao fim, não esquecesse, principalmente, daquelas amadas pessoas que quando eu acordava me chamavam para tomar café e quando eu bocejava me convidavam para dormir.