terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Já não gostei


          Como não cair
em tentação com o mau dito
e o mau dizer do pensamento
sobre as dores do esquecer?

A nau que partiu aqui e ainda há pouco vagava
pelos cantos desenhados dum mapa
enfim,
            naufragou.

Não sou eu nem mais tu nem mais “ah, nós!...”.
É eu,
         tu,
(e  nós n’alguma caixinha).

Véus de popa.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Nomenclaturas


I

O vô ainda vê
As moças da sacada.

II

A mãe ainda pergunta
Se sentiu sua falta;
Ele rindo bobo
Responde ao fone que sim.

III

Que são eles
Que não eu?

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

escrever
é mais espirrar que esculpir

esvazio

sábado, 7 de janeiro de 2012

bocas novas:
novos silêncios.

domingo, 1 de janeiro de 2012

notas de um transformador em-si mesmado

primeira parte: monólogos
segunda parte: diálogos
terceira parte: conversas (dos amigos)
Porra raça,
vamo combinar de jogar um futebol sem bola!
Pro Rodrigo,
essa que vi na internet:
"Nunca confie na lua.
Ela já traiu a Joelma."
Hahaha eles têm um cachorro gigante!
E a música que se expõe demais,
com palavras justas...,
é poesia?
Inventei uma palavra que,
sem saber, já sabia:
                             futebola.

sábado, 31 de dezembro de 2011

- uuhh, good job! what was the color of the soup?
- it was yellow.

caule ou poeta

nós: os
olhos da árvore.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

o gato

Na vã esteira do dia
o gato repousa tranquilo:
vive.
(só ou não)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011


E pensar que todos eles já foram desse tamanho...
Já tiveram esse sorriso, já pularam e correram tanto!
Olha esse sorriso, teu! É meu sorriso nele, é
O soriso dele pequeno, sereno e moleque.

Sorriso de quem amou-a e me deu.

noite gelada

I

minha vida é assim mesmo, de vadio
eles lá e eu aqui, correndo
nessa noite freaking cold de céu gigante, doido
depois de me emprestarem duas meias e uma calça e um pano pra boca/nariz:
e eles lá com a pedrinha do meu pai.

(uma hora sai)

II

donde vem esse inclínio pra preguiça?
ante quantas limonetas eu resisto?
fato é grosso como pizza e azedo
susussurra "tua vida é um brinquedo"

III

se contasse a ti que ando sempre em dúvida
pois há vozes que lho julgam desrespeito
pensarias duas vezes a respeito
ou virias com palavras menos úmidas?

IV

waiting them to come
really tenderly
- knowing they will be
ok with all this -
feel like saaadly
just for not to be
playing the
fifa.

V

chegarão eles três
primeiros quês meus
como nunca adivinharei:
vivo a descobri-los
e nunca como today
os grilos vão pulantes vastos de amor e verdade seus

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Pintor de facas

Cem dimensões
Tomam as coisas em nossas mãos.

Que serão, pergunto,
Que serão?

O cajado do grande sábio,
Escondido rosto negro,
Apóia-se no chão de nuvens - eternidade.

Lá de cima,
Ao contrário do que sempre se pensou,
A morte veia
Em todos os nossos braços.

Cada ato como o último ultimato
Sedento pela sede, apenas,
E as terríveis penas
Que por dentro derrubam...

Que serão, pergunto,
Que serão?

A força dos golpes que atingem
Está
Na força do atingido que,
Sentindo a si sem cor,
Dá por dele a culpa.

- Outrem pintor de facas,
Outrem demônio meu,
Fuja-me e tinja-me o peito antes que o branco desta folha
Tome a mente e o coração desse que ainda não enlouqueceu!

Serão a indivisão
Meu-teu?

sábado, 3 de dezembro de 2011

Poema do jato

Sou um rio
Esperando pela chuva
Pra molhar mais,
Derramar mais,
Transbordar.

Ai, meu coração,
Tanto quis me apaixonar
Mais e mais!
Tanto quis descobrir um corpo que mostrasse o que eu não sou!
E agora que encontrei mas não o posso ter?
E agora que o jato partiu e o leva, moreno e brilhante,
Saudoso ao meu desabar sufocante e singelo,
Pra muito, muito distante?

Agora,
Qualquer aparelho eletrônico risca minha poesia,
Meu lamento choroso já que a posse nem é meu fim,
Já que finjo não importar ser o outro
Ao passo que o tento incessantemente mesmo assim.

Por que, coração, não me contento com a beleza dos momentos vãos?
E corro cego ao ridículo e exponho-me com palavras e gestos desengonçados
Enquanto ouço a confissão sincera que também soaria como desilusão
Não fosse o fato de essas paredes terem algo amaldiçoado,
Que se mistura ao brilho esparramado pelos ombros
Onde perpassam os cabelos ondulados com algum cheirinho bom,
Entornando-se em verdade?

Meu nariz entupido impediu-me quase sempre
De guardar o forte aroma dos momentos
E lembrá-los de imediato quando o vento
É certeiro no alvo fácil e peçonhento
Que avisa todos outros do seu corpo
E avista a imagem do desejo:
Pela primeira vez, experimento.

Inspiro-te e te beijo, e me jogo, e a janela aberta porque faz calor apesar da hora,
E muita sede, e muito xixi, e molhadas as barrigas rentes;
Sentes o que eu sinto e conhecemo-nos então assim:
Conversando madrugada a fora numa noite que não tem mais fim.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Soco


Num soluço da manhã respiro um soco de esperança e vontade de mundo,
E me tranco nesse quarto para fazer minha poesia inútil;

E em meio à força do discurso e da fonética do som das palavras faladas,
Recolho-me à palavra muda, que ecoa de dentro pra mais dentro ainda:
Meu silêncio espera a hora da música enquanto as vozes circulam fugazes.

Aí então o mundo ouvirá meu canto,
Arraigado nas entranhas ferozes do meu corpo,
Onde se fundem sentimento e palavra.

“Quando eu soltar a minha voz...”

domingo, 27 de novembro de 2011

Bisturi


De tanto que engrandeço as pessoas,
Insistem em provar com desespero:
“Sabes que não somos isso tanto!...”

E eis que tudo enfim cai no balanço
Dos antigos coqueiros naquela praia,
Cantando a inconstância da natureza,
Cantando a inconstância da vida humana.

Açoriano tecer o endeusar,
Soluço orgástico o desendeusar.
Pois sim,
Desfiamento repentino o instante bisturístico
(a arte do cortar do bisturi
                                        - palavra porque instrumento).

Todos no mesmo andar,
Todos da mesma altura,
Todos o mesmo olhar
                               t.v.

A mesma decepção de sempre:
São todos
            a mesma merda
                                     que eu.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

conversa de banheiro

1 ai, esses olhinhos...
2 meus olhos nunca mentem
1 teus olhos nunca mentem,
1 são olhos de poeta.

2 ahaha essa é boa
2 "meus olhos nunca mentem, são olhos de poeta."
1 é, boa mesmo...!

- disse esse meu amigo
querido pela negra pele
que o aço de sol crivo
e os olhos verde-vivo
interceptam-me!

o gosto pelas palavras nos comove a veia
o sangue de células pares nos sobe os olhos
enquanto a ceia nos vem à mesa
com temperos brasuca-arábicos

e o vinho, quando a cerveja, quando o uísque, quando a fanta, quando a água...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

madrugada

recapitulo um capítulo catapultado e esquecido
a memória segue atenta às suas funções:
esquecer o rosto bonito e lembrar dos dentes mal-distribuídos
- decepcionante porque eras tão linda

a odontologia toda em questão
como um simples estado de espírito
elas mesmas estragam a poesia
elas mesmas estragam seus dentes, minha ilusão.

no cenário tão improvável que perfeito, há pedestais,
chão quadriculado e arquibancadas eruditas onde um rei enfim impera,
gentes que se rolam pelo chão e são mandadas parar e param,
música ruim que bate incessante um ritmo mentiroso e cristais,
cristais de visões alucinantes e sedentas de intenções-intensidades:
a jovialidade nos jovens como a birra no bebê.

a luz azul não lembra o circo mas não precisa lembrar.
a tragédia já foi escrita, redigida e editada a mãos trêmulas, histéricas,
que guardaram um final patético disfarçado de bem-querer
aos ingênuos atores que se encontram para a desilusão

tu sim eu não

arrevoados vão
um para a cama
outro para a lama das calçadas disfarçadas de sujeira
que nada
há vida na calçada pois há conversa primeira
sobre esses que vêm e que vão e que podem vir e ir que bulhufas que são
impõem seus absurdos naturais e cegos e suas ondas de barulho
falam e berram e falam e sentam e saem e logram a cada minuto a hora sublime, o encontro perfeito,
e vão para outro lugar onde será maravilhoso estar, todos juntos, união-alegria-uhul!
azul azul azul é o circo da ilusão

caminho então por ruas anônimas
lamentando a desimportância das pessoas
sonhando com encontros verdadeiros
enquanto paralelamente vejo
como é linda a amizade, o parceiro,
que partilha a vontade e o desejo,
e caminha ao meu lado por distâncias
infindáveis na memória sem tempo

domingo, 13 de novembro de 2011

a beleza
está na graça,
          no olho risonho,
              na bochecha marcada,
                   no cabelo.

morena,
sua graça me encanta,
me espanta esse riso tão amigo,
                                         bonito,
                                              bobão.

sábado, 12 de novembro de 2011

pelado

o silêncio se foi.
as vozes surgiram da terra,
                                por acaso,
algo marcado de dúvida e abalo
                                                 que,
                            inevitavelmente,
         bum:
                explode.

são os tempos novos,
                          da ressurreição,
                          da revolução,
                          da respiração.

o ar...
cinza do pó da vida,
                        poeira de civilização,
         mostra-se intragável
                       - tosse seca de quem não cabe o mundo nas mãos.

sigamos, irmãos,
há muito o que ser rompido
               nas almas costuradas fio por fio.

o preço do passo
é incurável,
porém,
que é a vida que não ir sem poder voltar?

já não volto pro mesmo lugar,
já sou outro, portanto,
                       como o rio que mergulho todo verão.

aceno de longe,
eis a minha despedida
aos que logram-me na fila,
                        obediente,
                            consciente,
                                responsável,
                                   correto,
                                      fechado.

tirei tudo,

to pelado.
                       

                               

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

sobre as pessoas I

e se
     eu
   perceber
que
   ver
      o
       lado
          bom

é pior?

diálogos I

- É tudo uma invenção, é uma coisa que não existe, a gente criou mas não existe... A gente pode escolher o que essa coisa é simbolicamente! Pode ser um PDF, pode ser a betúnia que o Leojorge botou! - Lucas
- Desconstruir o PDF. -Ricardo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

esperando o dia

Um chazinho
e
Um versinho
Pra esta manhã esquisita,
nublada,
cinza.

Um bom dia.

domingo, 6 de novembro de 2011

Ode ao amor

Quando eu não te quis
Pra mim,
Eu te quis então.

A tua solidão,
A minha solidão,
É isso o que me interessa:
A não pressa com as presas que dispomos
E laçamos, enfim,
O touro estabanado que mugia, há pouco,
Dentro de nós.

Não laçar:
Eis aí minha glória final,
Meu púlpito magistral de quem hoje ergue a espada e a voz,
Que dilaceram corações mesquinhos e
Cantam aos passarinhos a natureza dos sóis,
Mas que outrora já foi sim,
Escravo da falta maior.

O buraco inconfundível da intersecção chama-se “nós”,
Entidade essa que guardamos com os braços.

(mas os braços
são apenas braços:
requer-se mais!)

À maneira como os macacos dominaram um pedaço de osso,
- causa prima do nascimento do moço –
Criamos esses utensílios que alcançam mais
Que os braços,
Para então guardar com toda precisão,
O outro
Pra mim.

Homem-objeto-mundo
Homem-objeto-homem

Pela falta da posse,
Canto ao amor essa ode.

(cante)...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Minha poesia

Não logro os versos lusitanos,
Quinhentistas, coloniais:
Os verbos rechonchudos não me caem.

Essa nobreza lingüística,
Banhada a ouro,
Não sei bem como,
Não me fisga,
Não me toca.

A folha, a mesa, o pão,
A vida, palavras assim,
Cantar, chegar, comer,
O mundo... por que não?

Talvez da canção de quem cantou a mocidade,
Mirando, do alto, a alvorada na cidade,
Sem papel, caneta,
Só violão,
Essa resguardada simplicidade minha.

As palavras são sons, músicas:
Que poderia ser,
Minha poesia de varanda,
Que não, senhores,
O próprio samba?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No escuro do meu quarto,
as folhas da bananeira
que o vento balança lá fora,
sussurram-me, devagarinho,
"dorme..."

Mas eu não quero.
o novo me assombra:
não decorei seu rosto
sua voz
mal posso sequer
pensar-vos!
Câmeras,
esses momentos não nasceram
para serem registrados.

Não partilho
essa necessidade
de não esquecer.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um brain-storm chamado Charles Severino

Charles Severino,
seu irascível comportamento
falhou quando não devia, companheiro.

Charles Severino,
o outdoor anunciou
as vagas de emprego
sua testa brilhou
de suor
por quê, amigo?

Charles Severino,
você nunca sequer viu o mar!
Como pensa então,
em sair cavando esses buracos
e deixá-los,
simplesmente,
vazios?

Charles Severino,
na tarde do dia tal
você me procurará sob a premissa de que há
na cidade
um novo circo
um novo espetáculo
e você precisará assistir para não estourar
nas suas nádegas
um furúnculo maldito, Charles
Severino sou eu, companheiro.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A vida
é como a direção duma ambulância
paradoxalmente
tão triste

mas tão divertida!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

cinzas na cidade

as cinzas
de um vulcão
dum país que é
vizinho
do meu
invadiram-me a cidade e
com sua névoa
entranhou-se
na lataria
dos carros

subestimamos a distância

o roubo

olha o roubo
que faz
o menino na
padaria

que é o roubo
que faz
o menino?

escondidinho
vai
incerto
roubar

e ah,
quando pega
enfim
o objeto ainda não roubado e
sai
sem olhar pro lado
sentindo
passo a passo
o gosto da vitória
o gozo da farsa
que subitamente
surge por dentro

sendo
ainda mais gostoso
que o gosto
do objeto
já roubado

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

canção da liberdade

vou pro mundo
pras pessoas
pros encontros
desde a tarde
à madrugada

sei que não é nada
todo esse dilema
falso-problema
força reativa

aqui está a vida
pelo menos agora
e isso também
é só o que sei
das voltas
que o mundo dá
há anos
zilhões de tempo
super-espaço
pra toda e única
sortuda vida
ser
em paz

mas os homens
merecem um só verso
de três palavras:
mas os homens
mas os homens
etc.

só por isso
porque hoje
sinto vivo
todo Não
deixo o grito virar canção
e parto comigo
ao infinito que existe
de barco e remos às mãos

sábado, 15 de outubro de 2011

ah, bichinho,
ninguém como você
desvendou-me o corpo antes

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

a praia
quando chove e a maré baixa
me deixa triste pra burro
depois desse charuto

eucorpo

Essa cabeça que gira
no eixo do meu pescoço
pesa um peso que existe:
há coisas dentro!

Um leve mau-jeito
faz-me lacrimejar
um simples rodar
faz-me inflar o peito

Não sou mais que esse
todo único e móvel
que pelas ruas e veias
flui, vai, cai...
(preguiçosamente)

Essa cabeça que gira
no eixo do meu pescoço
sem pescoço não gira
sem os olhos não ri
sem os braços não ama
sem as pernas não sofre
sem o peito não diz
sem a bunda não chora
sem o pinto não pode
sem o pulmão não vive

domingo, 9 de outubro de 2011

conversas

uma eternidade de poemas:
assim são as conversas

ao pé da lua,
nos braços da mãe embriaguez,
que nos faz ver o mundo de muito longe,

onde os corpos não alcançam nem calculam;
onde tudo é repensado e discutido;
onde eu posso estar
ao mesmo tempo
aqui,
agora,
nesse dormir e acordar que é a vida conhecida,
mas também lá fora... fora...
do círculo.

oh, deus, quantas foram as rodas
de conversa,
de completo estado de alteração de consciência,
de sensações vivas,
de hipóteses sobre a vida, sobre o homem
que escreve,
que vê tudo diferente, que tem seus motivos, que ama e não entende por quê!

quantas?

pois quando me sento com pessoas lindas
- como são lindas!... -
e falamos sobre tudo isso
(ISSO)
e vemos o céu, as árvores (de baixo),
as construções com suas bolas giratórias que não entendo no telhado,
a vida que nos foi concebida e que perdemos tanto tempo agradecendo, concordando, carregando,
sob duras ameaças do esboço que ela é,
suas consequências! decorrências!
"Veja bem, menino!" - vozes dentro de nós agora

ah...

sentemos,
rodemos,
fujamos para lá:

para o absurdo e mais-o-que-você-quiser
universo da poesia.

sábado, 8 de outubro de 2011

| | | | | | |

assim são os anos,
riscos transparentes no espaço largo do tempo,
fendas que me doem por dentro tão forte...
supliciosa,
melancolicamente.

esses senhores cavaleiros estáticos
em posição de guerra, armadurados,
que não podemos olhar nos olhos pois ninguém,
ninguém sobreviveu.

os anos são arcos,
portais,
cavernas no próprio céu;
suas vozes são coros,
algo angelical são os anos

- os mesmos que,
por trás,
me golpeiam.

os mesmos que são morte,
que vejo apenas morte e solidão,
que só vieram para me deixar assim,
eterno enfermo da alma.

os anos são sempiternos,
são imagens dentro de mim
que nunca foram localizadas.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

pulo

Queda
do alto
desta
nuvem

rumo
reto
ao oceano.

Vim ver o ar que existe
por meio milésimo
quando o corpo rompe o mar,
quando a água cava a água.

Ele está sempre pronto
pro novo,
há espuma, não há o que temer.
"shhhhhhh..."

sábado, 1 de outubro de 2011

conversa

Ah, Eu que conversa comigo...
Ai, essas vozes...
Ah, quem sou eu...?

Tudo que sinto te digo
logo ao pé do ouvido.
Vivo o delírio sem eu...

Fora, fora, fora...
esguio-esquizo-esquisito.

Raiva, quanta raiva,
fechando o porta-malas,
já tive de você!

Por que calas,
siri,
na hora de não calar?

Teu silêncio é o meu naufrágio, minha solidão,
minha desrazão com as coisas do mundo que deveriam ter qualquer sentido!
Teu silêncio é a minha dúvida.

Embriaguemo-nos, eu,
entremos madrugada a fora nessas conversas de crianças que dormem uma ao lado da outra,
essas imagens que ficam,
metamorfose onírica...

Ouço-te com ouvidos de filho,
de amigo, inimigo,
camelo, leão, criança. Sim,
embriaguemo-nos,
vamos ver quão longe podemos chegar,
quão perto...

Testemos essa ponte!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

(sem título)

Me vi sem o nós numa sexta-feira depois do almoço
- alguma hora eu perceberia;
Disfarcei.

Novos termos, novas palavras, novos status;
Eu estático no ponto de ônibus esperando muitas outras coisas
(o benefício da troca, pelo menos)

Noites em aberto, em claro, em vômito, em nãos, em paredes de madeira quase cedendo, em   velas acesas que mostram o céu, em pequenos segredos sujos, em conversas sobre a história da loucura, em dramatizações de suicídios, em cantorias para a cidade, em migrações, em muretas vendo a ponte, o mar, as velas, os iates antigos que são boates, a um passo de uma ladeira virgem com uma placa de vende-se, lembrando das caminhadas em clarão artificial na madrugada de Nova Iorque hesitando em ir no novo bar ou garantir o de sempre, de olho nas motos que passavam mas principalmente na cerveja de daqui a pouco, amigos já bêbados também a caminho, flanelinha querendo dois adiantado, Léo tentando estacionar em três lugares impossíveis, mais uma antes de entrar;

A chuva parou e todo mundo resolveu sair nessa sexta de lua cheia e amarela e anunciei que ficaríamos ali no estacionamento à beira-mar comendo desesperadamente nossos hambúrgueres, batatas e por que não um sundae, até que ela tivesse completamente sumido por detrás do morro lá do outro lado, no continente, e a lua amarelo-sol se foi tão rápido que conseguimos acompanhar seu trajeto de menos de cinco minutos (“O mundo tá girando muito rápido” – alguém falou)

Vou aprendendo que viver é ser amargo com as coisas do passado e que os dias são fatos isolados, nada têm a ver uns com os outros
Ah, que grande mentira, que parte de mim realmente pensa isso?
A solidão máxima e plena que ainda não consegui dançar com mas vou respondendo que tá tudo bem e talvez até acredite nisso mesmo
Mas voltando de ônibus um cheiro de protetor solar me traz seu rosto com esse gosto e suas pintinhas e aquela foto com o papagaio e eu respiro devagar porque eu realmente amava tudo isso
Cada dia a mais será uma história que ficará guardada paralelamente às histórias de nós e talvez estarão até o fim confrontando-se dentro de mim como o pai e a mãe no menino da Árvore da vida 
– será sempre uma espera.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Árvore

Folha por folha,
A árvore que o tempo criou,
Com juras de eternidade,
E céus estrelados de amor,
Desfaz-se.

Seria o outono passageiro?
Um ciclo medroso que volta
Pois nunca aceita a sorte, o destino,
A verdade da escolha de ir?

Seria o desejo de sentir-se
Só - sem todas as extremidades -
Pois o que interessa é o percurso, o caminho,
E não o ponto final?

"As folhas me cansam,
Sequer vejo graça,
Cresceram já tanto...
Me deixem! Me basto!"

Vontade absurda de atingir o marco zero,
Sentir-se vazio, inócuo, varrido,
Como fosse assim um grito:
"Sou vivo! Não sei o que espero! E sofro,
Mas só porque o quero."

A árvore que o tempo criou,
Folha por folha,
Com chuvas, trovões e calmarias,
Ventos, brisas e sol,
Não é feita só de folhas:
É feita de lembranças.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

um olhar para a minha zona de conforto

ensaio um esboço de renovação
testo os limites das minhas mãos
sinto a distância (longe, junto)
sinto a essência dessas vontades
penso nas reais possibilidades
ouço as vitais necessidades
localizando-me nesse espaço
mapeando meu espectro
certo, nada é certo
sempre, nada é sempre
fujamos dessas lentes que pusemos
coloridas, mentem ao extremo
há tanto branco e preto para ver...
há tanto desejo pra correr...


não parto porque o temo:
céus, como é duro sair do céu...!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

a fraqueza nas minhas pernas when im high é A Insustentável Leveza Do Ser.


8/8/11
de tarde

domingo, 21 de agosto de 2011

aaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

em tempo

flutuar no tempo
boiar no mar de horas
secar o rio de sempre
quebrar as toras do nunca
que passa, passa, passa...

deixar o passar para lá
mentir o trajeto do sol
fechar os olhos pra lua
raspar com lixa as rugas

não posso esperar mais
por nada, aliás
nem mesmo a primavera
(não sinto seu ar)

fecho a tampa do pote
equilibro a ampulheta
da vida, da morte,
da transformação:
canoa só
sobrou o caniço
vento soprou


sumiço

sábado, 13 de agosto de 2011

hoje não há poesia, há só um vazio e um "meu deus eu nunca tinha chorado assim"

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

de manhã

Acordei com a leve ressaca que as algumas cervejas pra boca seca deixaram, lembrando de como foi simplesmente agradável noite passada, apesar das mil coisas na cabeça, ou justamente por isso, e tomei um banho; voltei pro quarto, ainda de cortinas cerradas, liguei o vinil, o som adjacente, e botei a agulha pra tocar. Paul Simon & Garfunkel, começando sempre por essa, e fui abrindo as cortinas. O sol, o dia, os dois me atravessando. Sentei na cama, e do meu lado, na mesinha de cabeceira, na pequena pilha de livros recentes, lembrei do livro de poesias do meu professor. A primeira poesia que abri, no meio, avulsa, foi a única que eu precisei.

A folha


Invejo a folha livre
que abana sem distinção,
que brinca no vento
e se enleia no sol.

Invejo a folha do ar,
a folha da árvore,
a folha sem cérebro
que não sofre o destino das coisas,
que vive
no coração da natureza.

Invejo a folha! Ela é livre
e eu não sou;
ela vive no coração de Deus,
eu vivo no frágil
coração da mulher.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

insight das 02:24

Não acho que as coisas tenham essas causas... e se tiver, a maior vai ser sempre o tempo. Sempre...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

delírio da 1:12

eu quero me perder nas viagens de kerouac
pra esquecer que eu não saio do lugar
pra sentir um pouco a vida
pra sublimar

eu quero que esses olhos se afastem
porque eles me trazem o mal
o mal tanto quisto no fundo
que grita em vez de calar

veja esse castelo de cimento
há muito erguido lentamente
como balança com o vento
como embaralha a mente

eu amo e amo e amo
e quero o mais fundo amor
mas cavo cavo e cavo
e porra, onde é que eu tô?

esse lugar é o céu?
esse lugar é o inferno?
eu vim até aqui
mas só vejo o belo

nem consigo pensar mais
na outra possibilidade
imerso, inerte, caminho,
febril mas cheio de amor

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

me levaram de carro pra longe agora
só o que vejo é poeira e marcas de dedos
mas a janela é de vidro, e vidro é d'água:
posso, posso sim ver o mundo lá fora.

o bumbo marca a levada boa
que canta e leva até São Cristóvão
são desses sãos Santos que nomeiam ruas
como a minha, ladeira cinza que de tanto vento voa

a levada leva à São Cristóvão, o carro até San Fran
eu, meu pai e minha mãe, brincando de bambolear por aí

vemos, do alto da costa, o mar que leva ao Japão
o mar da Paz, do Atlântico irmão,
tão grande, tão delineador, tão prova do formato bola do mundo,
que não há mãos, sem truques, que o abrace. Não.

no tempo e espaço nossa vida se espalha
mas o que mais forma-se são intersecções
encontros dos encontros, círculos como mandalas;
atrasados compreendemos estupefatos a vida
e concluímos que cara, sempre há tempo.